Naquele tempo, bem ao contrário de hoje, o tempo livre não só parecia ser mais longo como mais relaxante.
Sentada num nicho da faustosa sala de jantar com janela para o jardim naquela imensa casa, propriedade da Menina Amelinha Caldas, bebia-se chá de Moçambique em chávenas de porcelana fina.
Era um ritual de Verão, porque as tardes convidavam ao sabor do chá, à meditação e ao ouvir música clássica na Emissora Nacional.
Daquela casa, que fazia esquina no início da Calçada dos Mestres e que ocupava os números 1, 3 e 5 em Campolide não existe absolutamente nada. Foi tudo reduzido a pó.
Assim que a Menina Amelinha Caldas morreu aos 103 anos em 1960, os primos herdeiros venderam toda a propriedade que não só era constituída por aquela casa como também por várias outras anexas incluindo a nº 7 logo ao lado, onde eu vivia; para serem todas demolidas.
Ficaram as memórias, quase fotográficas, de episódios absolutamente invulgares para a felicidade de uma criança que ali viveu apenas até aos sete anos.
Do olhar pela janela até ao infinito num fim de tarde, do beber chá saboreando-o em mínimos goles, do ouvir Bach em completo silêncio, do meditar para me ouvir, ficou tudo e muito, muito mais.
Um dia hei-de escrever mais, páginas soltas, sobre memórias desses dias que representam vivências bem diferentes das de hoje, que são minhas porque eu as escolhi e guardei.
Gina
30.10.2011